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Entrevista com Silvando Carmo de Oliveira–coordenador GT 10 – DESENVOLVIMENTO SOCIAL, AMBIENTAL, ECONÔMICO E SUSTENTÁVEL E PESQUISAS EMPÍRICAS no CAED-Jus 2026

O entrevistado da vez é o Silvando Carmo de Oliveira.

Silvando Carmo de Oliveira Professor Associado da Universidade Federal do Ceará (UFC);

Doutor em Economia pela Universidade Federal do Ceará, com pós-doutorado em Engenharia Biomédica;

Graduado em Direito, atua na interface entre Economia, Direito e desenvolvimento sustentável;

Pesquisador nas áreas de mercado de trabalho, economia da saúde, desenvolvimento regional, sustentabilidade socioambiental e políticas públicas;

Atua com análise econômica do Direito, governança pública e métodos quantitativos aplicados ao campo jurídico e social;

Exerceu a Coordenação do Curso de Ciências Econômicas da UFC e integrou comissões acadêmicas e institucionais de destaque da Universidade Federal do Ceará;

Foi Diretor Financeiro da Coopensino – Cooperativa de Professores de Ensino Superior;

Possui trajetória acadêmica marcada pela interdisciplinaridade, rigor metodológico e compromisso com a transformação social por meio da pesquisa científica aplicada.

Nesse momento, coordenador do GT 10 – DESENVOLVIMENTO SOCIAL, AMBIENTAL, ECONÔMICO E SUSTENTÁVEL E PESQUISAS EMPÍRICAS

Confira a entrevista:

1) Quais foram as principais influências ou experiências que moldaram sua abordagem acadêmica até hoje?

Minha trajetória acadêmica foi construída a partir de uma perspectiva essencialmente interdisciplinar, marcada pela convergência entre Economia, Direito e áreas aplicadas da Engenharia. O doutorado em Economia, com ênfase em mercado de trabalho, desenvolvimento e análise econômica, consolidou uma base metodológica rigorosa, sobretudo no campo da investigação empírica e da interpretação de fenômenos sociais complexos. Posteriormente, o pós-doutorado em Engenharia Biomédica ampliou essa visão ao incorporar reflexões sobre inovação, sustentabilidade, recursos naturais e desenvolvimento tecnológico.
A graduação em Direito representou um movimento natural de aprofundamento intelectual, permitindo compreender de forma mais sofisticada a interface entre instituições jurídicas, eficiência econômica e formulação de políticas públicas. Essa integração entre Direito e Economia passou a orientar grande parte da minha produção acadêmica, especialmente em temas como análise econômica do direito, teoria dos jogos aplicada ao sistema jurídico e desenvolvimento sustentável.
Além disso, a vivência institucional na Universidade Federal do Ceará, tanto na docência quanto em funções de gestão e participação em comissões estratégicas, contribuiu significativamente para uma compreensão mais concreta das estruturas decisórias e dos desafios da administração pública. A atualização constante, por meio de pesquisas, publicações e formação continuada, sempre foi um princípio orientador da minha atuação acadêmica.

2) Como a sua experiência acadêmica prévia contribui para a sua visão sobre os desafios e oportunidades do seu GT no CAED-Jus?

A experiência acadêmica construída ao longo dos anos permite uma compreensão mais ampla e metodologicamente consistente dos desafios que envolvem o GT 10, especialmente por se tratar de um espaço que exige diálogo entre desenvolvimento social, sustentabilidade, economia, meio ambiente e pesquisas empíricas aplicadas ao Direito.
A formação em Economia oferece instrumentos analíticos robustos, especialmente no campo da econometria, da estatística aplicada e da avaliação de políticas públicas, permitindo interpretar fenômenos sociais e jurídicos a partir de evidências concretas e não apenas de abstrações normativas. Essa perspectiva é particularmente relevante quando se busca compreender os impactos reais das normas jurídicas sobre diferentes grupos sociais e sobre a dinâmica institucional do Estado.
Ao mesmo tempo, a formação jurídica possibilita a necessária leitura crítica das estruturas normativas, da efetividade das políticas públicas e da função regulatória do Direito no desenvolvimento econômico e social. Essa dupla formação favorece uma abordagem mais sofisticada, capaz de superar visões fragmentadas e propor análises mais consistentes sobre sustentabilidade, justiça distributiva e eficiência institucional.
Vejo o GT como um espaço privilegiado para essa convergência, no qual a pesquisa empírica deixa de ser apenas complementar e passa a ocupar posição central na construção do conhecimento jurídico contemporâneo.

3) Como você enxerga o papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais do direito e em outras áreas interdisciplinares?

O CAED-Jus desempenha um papel extremamente relevante na formação de novos profissionais porque rompe com uma tradição excessivamente dogmática e compartimentalizada do ensino jurídico. O Direito contemporâneo exige profissionais capazes de dialogar com múltiplas áreas do conhecimento, especialmente diante da complexidade dos problemas sociais, econômicos, tecnológicos e ambientais que marcam o nosso tempo.
Nesse contexto, o congresso funciona como um verdadeiro espaço de formação intelectual avançada, promovendo o encontro entre pesquisadores, docentes, profissionais e estudantes de diversas áreas, como Economia, Administração, Ciência Política, Sociologia, Tecnologia e Gestão Pública. Essa interlocução qualificada fortalece uma visão mais crítica e mais realista da função do Direito na sociedade.
Mais do que formar operadores jurídicos tecnicamente preparados, o CAED-Jus contribui para formar pensadores institucionais, profissionais capazes de compreender os efeitos concretos das decisões jurídicas e de atuar com responsabilidade social e visão estratégica. A interdisciplinaridade, nesse sentido, não é um complemento, mas uma exigência da própria contemporaneidade.
Eventos dessa natureza ampliam horizontes, estimulam a produção científica e fortalecem a cultura da pesquisa séria, algo indispensável para a renovação do pensamento jurídico brasileiro.

4) A temática do seu GT é fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da sua temática?

O principal desafio reside justamente na superação das barreiras epistemológicas entre as diferentes áreas do conhecimento. Ainda persiste, em muitos espaços acadêmicos, uma resistência à construção de pesquisas verdadeiramente interdisciplinares, seja pela rigidez metodológica de determinadas áreas, seja pela dificuldade de comunicação entre diferentes campos científicos.
Economia, Direito, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento social operam, muitas vezes, com linguagens próprias, pressupostos distintos e critérios diversos de validação científica. Integrar essas dimensões sem comprometer o rigor metodológico é, sem dúvida, o maior desafio.
Entretanto, essa complexidade não deve ser vista como obstáculo, mas como necessidade. Os problemas contemporâneos não são simples nem unidimensionais. Questões como desigualdade social, mudanças climáticas, governança institucional e eficiência das políticas públicas exigem respostas igualmente complexas e sofisticadas.
Por isso, acredito que o verdadeiro avanço está na construção de pesquisas que conciliem profundidade teórica com aplicabilidade prática, permitindo que o Direito dialogue com a realidade concreta e não permaneça restrito a uma função meramente formalista.

5) De que maneira você acha que sua área de pesquisa pode impactar a transformação ou inovação no campo jurídico, especialmente em termos interdisciplinares?

A interface entre Economia e Direito possui enorme potencial transformador no campo jurídico, sobretudo porque permite substituir abordagens puramente intuitivas por análises fundamentadas em evidências empíricas e critérios de eficiência institucional.
A análise econômica do Direito possibilita compreender como normas jurídicas influenciam comportamentos individuais e coletivos, permitindo avaliar se determinada política pública produz, de fato, os resultados esperados. Isso é particularmente importante em áreas como regulação econômica, políticas sociais, acesso à justiça, resolução de conflitos e desenvolvimento sustentável.
Além disso, a utilização de métodos quantitativos e pesquisas empíricas fortalece a produção científica jurídica, aproximando-a de critérios mais objetivos de avaliação e ampliando sua capacidade de impacto social. O uso de bases de dados, modelos estatísticos e estudos comparados contribui para a formulação de leis mais eficazes, decisões judiciais mais consistentes e mecanismos institucionais mais eficientes.
A inovação jurídica não está apenas na criação de novas normas, mas principalmente na capacidade de tornar o sistema jurídico mais racional, acessível e funcional para a sociedade. É exatamente nesse ponto que a interdisciplinaridade se revela indispensável.

6) Quais recursos ou estratégias você utilizou para manter-se atualizado(a) e relevante dentro da sua área de pesquisa?

A atualização acadêmica exige disciplina permanente e compromisso com a produção científica. Entre as principais estratégias que utilizo estão a leitura sistemática de periódicos especializados, a participação em congressos nacionais e internacionais, o acompanhamento de pesquisas emergentes e o diálogo constante com pesquisadores de diferentes áreas.
A atuação em bancas de dissertação, teses e trabalhos de conclusão de curso também representa uma importante fonte de atualização, pois permite contato direto com novas abordagens metodológicas e com debates contemporâneos em constante transformação.
A publicação de artigos científicos e o envolvimento em projetos de pesquisa funcionam não apenas como resultado da atividade acadêmica, mas como mecanismo contínuo de aprofundamento intelectual. Pesquisar exige atualização constante e abertura para revisitar convicções teóricas à luz de novas evidências.
Além disso, a docência possui um papel central nesse processo. Ensinar obriga o professor a permanecer intelectualmente inquieto, revisando conteúdos, incorporando novos referenciais e transformando conhecimento em formação crítica. A sala de aula, muitas vezes, é também um dos mais relevantes espaços de renovação científica.

7) Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, qual habilidade você acredita ser essencial para o sucesso nesse tipo de iniciativa?

A habilidade mais essencial é, sem dúvida, a capacidade de escuta intelectual associada à humildade epistemológica. Projetos interdisciplinares exigem que o pesquisador compreenda que nenhuma área do conhecimento é autossuficiente diante da complexidade dos problemas contemporâneos.
Isso envolve flexibilidade para aprender com outras disciplinas, abertura para revisar pressupostos e maturidade para reconhecer limites da própria formação. A interdisciplinaridade não se sustenta sobre vaidades acadêmicas, mas sobre cooperação qualificada.
A comunicação clara também é indispensável, pois é necessário traduzir conceitos técnicos de forma acessível para profissionais de outras áreas, sem perda de profundidade científica. Soma-se a isso a capacidade de colaboração genuína, o pensamento crítico e a disposição para construir soluções coletivas.
Em síntese, o pesquisador interdisciplinar precisa abandonar a lógica do especialista isolado e assumir a postura de um intelectual de fronteira, capaz de transitar entre diferentes saberes com rigor, respeito e compromisso científico. É exatamente nessa convergência que surgem as pesquisas mais relevantes e socialmente transformadoras.

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