A entrevistada da vez é a Rachel de Miranda Taveira.

Rachel de Miranda Taveira Mestra pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), no Núcleo de Filosofia do Direito;
Advogada, com atuação nas áreas cível, imobiliária/condominial, família e previdenciária;
Atuou como advogada popular e orientadora na Fundação São Paulo, com ênfase em tutelas coletivas de moradia e defesa de direitos;
Pesquisadora nas áreas de acesso à justiça, pluralismo jurídico e interdisciplinaridade;
Cofundadora do Instituto DiverCidades e do Instituto Fórum Popular da Natureza;
Atualmente, coordena a área pedagógica e de Cidades e Meio Ambiente no Instituto DiverCidades e advoga em escritório próprio;
Autora e coautora de artigos sobre acesso à justiça, interdisciplinaridade, ecossocialismo e desmatamento.
Nesse momento, coordenadora do GT ESPECIAL: DIREITOS DA NATUREZA E EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL.
Confira a entrevista:
1) Quais foram as principais influências ou experiências que moldaram sua abordagem acadêmica até hoje?
Minha abordagem acadêmica foi moldada pela articulação entre prática jurídica e reflexão crítica, especialmente a partir da atuação como advogada popular em conflitos envolvendo moradia, território e direitos coletivos. Essas experiências evidenciaram, na prática, os limites do direito quando dissociado das realidades sociais e ambientais concretas.
Também foram fundamentais os diálogos com saberes indígenas, periféricos e populares, que ampliaram minha compreensão sobre justiça e normatividade para além do direito estatal. A partir dessas influências, passei a construir uma perspectiva interdisciplinar, em que o direito é pensado como prática social, política e ecológica, atravessada por disputas e diferentes formas de conhecimento.
2) Como a sua experiência acadêmica prévia contribui para a sua visão sobre os desafios e oportunidades do seu GT no CAED-Jus?
Minha trajetória permite compreender o GT como um espaço de construção coletiva voltado à articulação entre direito, educação e questões socioambientais. A pesquisa em pluralismo jurídico e a atuação prática demonstram que os desafios centrais não são apenas normativos, mas envolvem disputas sobre quais saberes são reconhecidos como legítimos.
Nesse contexto, o GT representa uma oportunidade de promover diálogos entre diferentes campos e experiências, especialmente no reconhecimento da natureza como sujeito de direitos e na construção de práticas educativas que sustentem essa transformação. Trata-se de criar pontes entre teoria, prática e território.
3) Como você enxerga o papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais do direito e em outras áreas interdisciplinares?
O CAED-Jus tem um papel fundamental ao ampliar as possibilidades de formação jurídica para além dos modelos tradicionais. Ao incentivar abordagens interdisciplinares, contribui para formar profissionais mais preparados para lidar com conflitos complexos, especialmente aqueles que envolvem questões socioambientais.
Esse tipo de formação é essencial para que o direito possa responder aos desafios contemporâneos, incorporando novas perspectivas éticas e epistemológicas. Nesse sentido, o CAED-Jus se consolida como um espaço relevante de formação crítica e de articulação entre diferentes áreas do conhecimento.
4) A temática do seu GT é fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da sua temática?
O principal desafio está em deslocar o direito de uma perspectiva antropocêntrica para uma compreensão que reconheça a natureza como sujeito de direitos. Isso exige não apenas mudanças normativas, mas uma transformação mais profunda nas formas de pensar, ensinar e praticar o direito.
Além disso, há o desafio de integrar a educação socioambiental como elemento estruturante dessa mudança, e não apenas como conteúdo complementar. Isso implica articular diferentes saberes — acadêmicos, tradicionais e territoriais — em um diálogo horizontal, capaz de sustentar novas formas de relação entre sociedade e natureza.
5) De que maneira você acha que sua área de pesquisa pode impactar a transformação ou inovação no campo jurídico, especialmente em termos interdisciplinares?
Minha área de pesquisa contribui para tensionar os limites do direito tradicional e abrir espaço para novas formas de conceber justiça, especialmente no campo socioambiental. A partir do pluralismo jurídico e da interdisciplinaridade, é possível reconhecer múltiplas formas de normatividade e construir respostas mais adequadas à complexidade dos conflitos atuais.
No caso dos direitos da natureza, isso significa avançar na construção de modelos jurídicos que reconheçam a interdependência entre seres humanos e ecossistemas, promovendo uma abordagem mais integrada entre direito, educação e práticas sociais.
6) Quais recursos ou estratégias você utilizou para manter-se atualizado(a) e relevante dentro da sua área de pesquisa?
Busco manter uma atuação conectada a diferentes espaços de produção de conhecimento, incluindo academia, movimentos sociais e iniciativas territoriais. A participação em grupos de pesquisa, eventos e práticas educativas é fundamental para essa atualização constante.
Além disso, valorizo o diálogo com autores e experiências diversas, entendendo que a produção de conhecimento no campo socioambiental exige abertura para múltiplas perspectivas. A prática profissional também é um espaço contínuo de aprendizado, especialmente diante dos desafios concretos que surgem no cotidiano.
7) Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, qual habilidade você acredita ser essencial para o sucesso nesse tipo de iniciativa?
A escuta é a habilidade mais essencial. Trabalhar de forma interdisciplinar exige abertura para reconhecer limites próprios e disposição para aprender com outras áreas e experiências, especialmente aquelas historicamente marginalizadas.
Isso envolve também a capacidade de construir diálogos entre diferentes linguagens e saberes, sem hierarquizá-los. No campo socioambiental, essa postura é fundamental para desenvolver práticas mais justas, sustentáveis e conectadas com a realidade dos territórios.
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