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Como dar uma aula de direito sem citar o Código de Hamurabi

Você já teve um professor que citou o Código de Hamurabi sem qualquer necessidade?

Um dos objetivos da pós-graduação, além de criar pesquisadores para colaborar com o estudo do direito, é formar docentes para poder ensinar os caminhos do direito a esses pesquisadores.

É uma sensação indescritível entrar na sala de aula como professor e poder transmitir o que aprendeu, colaborar para o crescimento pessoal e intelectual de um aluno, auxiliar na elaboração de uma pesquisa que é um poço fértil de possibilidades ao direito e etc.

Mas, como tudo na vida, a docência tem dois lados. Nós vivemos em uma sociedade onde tudo acontece muito rápido. Em muitas situações, os professores têm cinco, dez turmas e deve preparar aula, provas, trabalhos, fora os momentos de correção, de orientação, participar de reuniões pedagógicas e uma série de outras responsabilidades. Para dar conta de tudo isso, algumas horas a mais no dia não seria ruim!

Especialmente com relação a preparar aulas, nem sempre é uma tarefa simples e, quando tentamos algumas fórmulas prontas, acabamos caindo na mesmice e na repetição.

Pior do que isso, começamos a dar os mesmos exemplos e a usar as mesmas palavras, o que pode virar uma marca registrada (e negativa) do docente na universidade.

Em alguns casos, seguimos a mesma metodologia de construção do conhecimento, ensinando a mesma coisa sempre da mesma maneira (é ai que entra o Hamurabi) e é neste ponto que devemos agir.

Nós do CAED-Jus, em nosso compromisso de trazer propostas inovadoras e efetivas ao direito, vamos falar hoje sobre como dar uma aula de direito sem citar o Código de Hamurabi e mostrar que o mundo vai além de Caio, Tício e Mévio.

#1 UM POUCO DE FILOSOFIA

Lembram de Aristóteles (esperamos fortemente que sim)? Ele tem algumas coisas para nos ensinar que vão nos ajudar a inovar enquanto docentes.

Vocês tem que entender que cada pessoa é composta por milhares de variáveis que afetam seus desejos. Cada um gosta de uma coisa, de um tipo de comida, um tipo de leitura, de música e etc. Então, quando você une uma plateia composta de pessoas diferentes entre si, são milhões de variáveis que alimentam todos os desejos possíveis.

Então, qual é o trabalho do palestrante ali presente? Encontrar um lugar-comum para a sua fala, em outras palavras, saber o assunto que vai agradar minimamente a todos.

É a mesma ideia para o docente. A aula de um professor é estruturada em cima de um discurso, uma situação que envolve a comunicação dentro de um determinado contexto e diz respeito a quem fala, para quem se fala e sobre o que se fala.

Então, uma aula não é só o que você planeja em casa para seus alunos, devendo levar em consideração todos os envolvidos e a si mesmo.

Na verdade, este conceito de discurso se desdobra do que o próprio Aristóteles disse na Retórica. Em palavras simples, o filósofo diz que o discurso persuade devido a três elementos:

1) O caráter moral do autor (Ethos): aquele que faz o discurso deve ser tomado como digno de confiança, uma pessoa que realmente sabe o que está fazendo e o que está falando;

2) Como se dispõe o ouvinte (Pathos): Em outras palavras, o que a pessoa da plateia espera ouvir. Quais são as emoções da sua plateia na hora do discurso, o que eles estão sentindo;

3) No discurso, o que ele demonstra ou parece demonstrar (Logos): Aqui são as ferramentas que você usa para transmitir o que quer. Nas palavras do próprio Aristóteles, “quando mostramos a verdade ou o que parece verdade, a partir do que é persuasivo em cada caso particular”.

Vamos resumir tudo e trazer para o contexto do docente.

1) Seus alunos devem entender que você tem algo a acrescentar. Isso não quer dizer que você deve ser arrogante ou ser o Senhor de Todo o Conhecimento, mas deve mostrar que eles podem confiar em você para aprender o que precisam para compreender o direito. Aqui será desenvolvida a confiança.

2) Seus alunos devem estar em sintonia com a sua aula, ou seja, os sentimentos deles não podem atrapalhar o aprendizado. Se os alunos estão em semana de provas (e com os nervos à flor da pele) seja mais maleável com a matéria e com a presença. Talvez uma revisão possa ajudar. Se os alunos estão se mostrando desanimados, reveja seu método para algo mais dinâmico. Aqui será desenvolvida a empatia.

3) Seu discurso deve ir ao encontro de seus alunos, ou seja, deve estar alinhado com eles. Se você tem uma turma que teve uma cadeira de filosofia insuficiente, que o outro professor não conseguia se conectar aos alunos, não planeje suas aulas com milhares de exemplos de filosofia. Se precisar voltar atrás e revisar algumas coisas, o faça. Você se tornará alguém confiável para eles e eles saberão que você se importa. Aqui será desenvolvida a didática.

Sinceramente, só com esses ensinamentos de Aristóteles já temos muitos meios de superar o “arroz com feijão” da docência. Vamos além disso nos próximos tópicos!

#2 SAIA DA MESMICE

Tão importante quanto criar uma metodologia e conteúdo de aula inovadores é marcar fundo na sua cabeça de que você deve sair do mesmo. Sabemos que a vida acadêmica cansa, que é difícil lutar contra a pressão do dia a dia.

Se quiser tornar isso tudo um pouco mais leve (e até mesmo animador), aceite o fato de que você tem que criar algo diferente, inovador e atrativo aos seus alunos.

Por mais que não pareça, ter a motivação certa é o primeiro passo. Reúna seus materiais de aula e repense. Algumas perguntas podem ajudar:

1) Há quanto tempo eu uso o mesmo material?

2) Há quanto tempo eu não atualizo o conteúdo do material?

3) Quantas turmas já viram o mesmo material?

4) Eu uso o mesmo material e metodologia pela qualidade ou por comodismo?

São perguntas básicas, mas que já podem dar indicativos de que é tempo de mudar um pouco.

 

#3 ESCUTE OS FEEDBACKS

A docência é necessariamente uma troca, apesar de professores descomprometidos ainda sustentarem que o modo certo de lecionar é unidirecional, ou seja, “enquanto um fala, o outro abaixa a orelha”.

Tira essa ideia da sua cabeça enquanto é tempo!

A sala de aula se sustenta à base de um relacionamento entre professor e aluno. Há uma reciprocidade saudável, pois um ajuda o outro a caminhar.

Sendo assim, escute seus alunos. Veja seus rostos durante as aulas. Eles estão desanimados? Qual será o motivo disso? O método que estou utilizando para ensinar direito tributário está funcionando? Se não está, o que devo mudar?

Seus alunos são o melhor termômetro que você pode ter.

#4 PROCURE OUTRAS EXPERIÊNCIAS

Muitos outros docentes tiveram a mesma iniciativa que você e buscaram novos métodos para ensinar o direito. Então, aprenda com eles!

A internet tem uma série de exemplos de metodologias inovadoras utilizadas no ensino, e não só no direito. Procure por elas, compare com as suas e absorva o que há de bom. Faça a síntese das duas em algo muito melhor e mais proveitoso para você e para seus alunos.

 

#5 INCORPORE A TECNOLOGIA

Achamos que esta dica é até desnecessária ante a importância que a tecnologia tem hoje na vida de todos nós. Devemos ir além do quadro e das canetas!

Fóruns de discussão, lista de e-mails, grupos de Whatsapp, de Facebook, utilizar os notebooks e celulares durante as aulas… é necessário trazer os novos tempos para a atividade milenar da docência.

 

#6 INVERTA A POLARIDADE

Como vocês já sabem, na pós-graduação é comum um tipo de abordagem diferenciada a partir de seminários. Os alunos estudam determinado conteúdo fora do período da aula, preparam uma exposição do material e depois o transmite aos seus companheiros, sob a tutoria do professor.

Essa é a ideia geral de uma sala de aula invertida (ou Flipped Classroom). Nela, abandona-se a metodologia expositiva, como nós falamos ali em cima sobre método de ensino unidirecional, do professor para os alunos, e se busca algo mais participativo, onde o conhecimento é produzido fora da sala de aula e é alimentado lá dentro.

Essa pode ser uma excelente alternativa ao método tradicional ao qual todos nós fomos educados. A partir de uma metodologia de ensino invertida, a responsabilidade de apresentação do conteúdo passa a ser mais do aluno do que sua, o docente.

O que mais você pode conseguir com este tipo de metodologia?

1) Os alunos são condicionados a participar das aulas, desde sua construção ao desenvolvimento;

2) O nível intelectual do conteúdo apresentado é elevado, já que a proposta é que os alunos já venham às aulas com uma leitura anterior do tema;

3) O trabalho de preparação do docente é diferenciado, pois você poderá se dedicar a outros elementos de aprofundamento, já que o básico estará preestabelecido nos estudos extraclasse;

As vantagens deste tipo de método são amplas. Use e abuse deste tipo de metodologia.

Lembre-se que o mais importante de tudo é aceitar que a mesma é possível. Saia do tradicional e explore novas possibilidades.

#7 EXPLORE A INTERDISCIPLINARIEDADE

Sem medo de errar ou exagerar, nós do CAED-Jus acreditamos no caráter plural e capilar do direito.

Assim sendo, Kelsen que nos desculpe, mas ter o direito como algo isolado, uma “ciência pura”, é ignorar todas as variáveis que incidem e estimulam sua reinvenção diária.

O docente, o pesquisador e o pensador do direito (não operador, porque o que se opera é máquina), se quiserem realmente compreender seu objeto de estudo, devem buscar os pontos de diálogo do direito com o resto do mundo.

No caso do professor, este é um trabalho ainda mais árduo, pois ele ensinará aos alunos que o direito vai além das fórmulas mecânicas que aprendem nos estágios, que escutam dizer no senso comum, o que nem sempre é uma tarefa fácil.

Por isso, busque as variadas fontes normativas que nosso mundo possui, pesquise como ela influencia o direito estatal, faça as considerações e demonstre isso aos seus alunos, mostre para eles o direito “na prática”, distanciando-se do mesmo como “ciência pura”.

Certamente você terá material para algumas vidas e você jamais citará novamente o Código de Hamurabi sem necessidade.

… E O CAED-Jus PODE TE AJUDAR EM ALGO?

Como nós falamos lá atrás, o direito dialoga com várias fontes e a internet é uma excelente base de dados para conseguir informações sobre essas relações.

Acontece que a internet é um misto de informações desorganizadas, como a cacofonia de um bloco de carnaval no meio da madrugada. É exatamente por isso que nós estamos aqui.

O Conselho Internacional de Altos Estudos em Direito (CAED-Jus) tem uma variedade de eventos periódicos, conjuntamente de conteúdos do site e aqui do Blog, que organizam os temas necessários para que você pode inovar no preparo de suas aulas e deixe Hamurabi de lado definitivamente.

Além disso, os eventos do CAED-Jus podem contribuir pelo menos com o seguinte:

  1. Membership em associação internacional
  2. Apresentação de trabalho em evento
  3. Participação em evento
  4. Publicação de trabalho como capítulo de livro impresso

Você pode acessar o site do CAED-Jus em www.caedjus.com e se inscrever no próximo evento programado com um artigo de sua autoria. Aproveite esta oportunidade!

A propósito, você seguiu essas dicas que falei e deu certo? Compartilhe conosco! Nos avise pelo email [email protected] e vamos conversar…

 

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Sobre os autores:

Felipe Asensi

Diretor do Instituto Diálogo, Pós-Doutor em Direito pela UERJ, Doutor em Sociologia pelo IESP/UERJ,Mestre em Sociologia pelo IUPERJ,Advogado formado pela UFF, Cientista Social formado pela UERJ, Membro Efetivo do IAB e da Academia Luso-Brasileira de Ciências Jurídicas, Senior Member da Inter-American Bar Association (IABA), Professor da UERJ, UCP, USU e AMBRA College, Autor de 34 livros.

Diego Monnerat

Mestrado em Direito pelo PPGD/UCP como Bolsista CAPES, na linha de pesquisa Fundamentos da Justiça e dos Direitos Humanos/Área de Concentração: Justiça, Processo e Direitos humanos. Graduado em Direito pela Universidade Candido Mendes-Nova Friburgo. Extensão em Direito Médico pela EMERJ. Professor tutor da Universidade Unyleya. Advogado (OAB/RN). Foi membro da Comissão de Saúde da Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção de Mossoró/RN.

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