O entrevistado da vez é o Celso Gabatz.

Celso Gabatz Professor Visitante do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Ciência Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS);
Confira a entrevista:
1) Quais foram as principais influências ou experiências que moldaram sua abordagem acadêmica até hoje?
Sempre que ocorre a oportunidade de participar e contribuir com a dinâmica preconizada pelo CAED-Jus, é possível perceber uma trajetória (de)marcada por múltiplas vivências pessoais e acadêmicas. Particularmente, a minha inserção se consolidou a partir da experiência e trajetória no âmbito do Ensino Superior, sobretudo com a atuação docente em diferentes espaços e programas da Pós-Graduação. Em minhas abordagens acadêmicas sempre busquei estabelecer reflexões que nos permitissem reinventar formas de ser e estar no mundo. O desafio que esteve presente e que foi moldando as minhas abordagens em diferentes momentos foi a busca por uma educação crítica, propositiva e dialogal.
2) Como a sua experiência acadêmica prévia contribui para a sua visão sobre os desafios e oportunidades do seu GT no CAED-Jus?
Os diferentes espaços de diálogo e partilha oportunizados pelo evento, são importantes para o desenvolvimento das potencialidades individuais e o pensamento crítico acerca do tempo no qual vivemos. Eu diria que entre os principais desafios e oportunidades que o GT propicia, estão a reflexão acerca dos conteúdos e as percepções em torno de uma sociedade mais justa, fraterna, humana e equilibrada. A vida enquanto dádiva necessita ser protegida e adequadamente usufruída. Esta vida que celebra o mistério da existência e a gratidão pelo nosso lugar no conjunto dos seres vivos.
3) Como você enxerga o papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais do direito e em outras áreas interdisciplinares?
Trata-se de uma questão essencial e que precisa ser compreendida no contexto de uma sociedade que, aos poucos, vai descobrindo caminhos e exercitando as sociabilidades na esteira daquilo que a tecnologia consegue oferecer. As reflexões a partir de temas atuais deveria suscitar meios para divisar a abrangência interdisciplinar de um conhecimento sempre preocupado em garantir o respeito à diversidade. O papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais contribui, sobremaneira, para que tenhamos a clara percepção de que, a despeito dos avanços das políticas educacionais em nosso país, ainda somos marcados por uma lógica excludente que continua sendo preconizada nos diferentes espaços sociais da realidade brasileira.
4) A temática do seu GT é fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da sua temática?
O nosso tempo é o tempo da aceleração tecnológica e científica que se consolidou e opera em um ritmo extraordinário. Hoje, os massacres em todos os quadrantes da terra são vistos no mesmo momento em que acontecem. Mais informação, simultânea e em excesso, foi produzindo uma espécie de hábito. A sociedade atual transformou a informação em espetáculo. Almoçamos ouvindo notícias escabrosas e vendo imagens de pessoas sendo assassinadas. Confundimos infortúnio com divertimento. As ações à distância podem preservar e salvar vidas, mas também são capazes de impactar em incontáveis exemplos de incitação ao ódio e intolerância. É preciso reafirmar a responsabilidade coletiva com vistas a uma plena cidadania.
5) De que maneira você acha que sua área de pesquisa pode impactar a transformação ou inovação no campo jurídico, especialmente em termos interdisciplinares?
Trata-se de uma questão complexa. O campo jurídico além de ser um espaço social estruturado de acordo com uma lógica que tem a ver com a produção de um determinado saber, não se econtra alheio a diferentes interpelações do poder. A diversidade de corpos, valores, estilos de vida é própria de nosso tempo. Por ser algo constitutivo de uma época, requer o desafio de olhar ao redor sem anular vidas ou experiências de tantas pessoas, mesmo que com elas não concordemos. Continuo acreditando que uma nova sociedade, um novo tempo e uma nova consciência, são princípios inalienáveis. Afinal, como preconizou Eduardo Galeano: a utopia é como o horizonte, está sempre distante, mas é o que nos faz caminhar.
6) Quais recursos ou estratégias você utilizou para manter-se atualizado e relevante dentro da sua área de pesquisa?
Hoje, ao que parece, o conhecimento necessita estar às voltas com um processo de subjetivação que vai ressignificado o protagonismo humano pelo senso comum. Já não basta o conhecimento, valem algumas convicções. Não raro, no lugar do convencimento por argumentos racionais ou científicos, reforçam-se os preconceitos, as confusões conceituais, os vazios cognitivos. Para além dos eventuais recursos teóricos ou das ferramentas disponibilizadas pela tecnologia, entendo que cada ser humano necessita aprender e reaprender o valor da convivência. Entabular relações que estejam alicerçadas na partilha, no respeito e no bem comum.
7) Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, qual habilidade você acredita ser essencial para o sucesso nesse tipo de iniciativa?
Devemos nos esforçar para descobir possibilidades de intervenção humana, criativa, solidária, cooperativa. Suscitar caminhos para ações que permitam reinventar as formas de ser e estar no mundo. A produção do conhecimento é uma oportunidade para abraçar horizontes de transformação. A nossa sociedade está carente de indivíduos que sejam exemplos no falar e no agir. Cidadãos e cidadãs que empenhem a sua palavra de forma comprometida em defesa da vida em todas as suas dimensões. É preciso lutar por ideais, abraçar causas, romper zonas de conforto. Fazer da própria palavra um instrumento de alento e esperança em dias melhores.
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