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Entrevista com Márcia Santos Duarte de Oliveira – GT 09 – TEORIAS, INTERDISCIPLINARIDADE E PESQUISAS EMPÍRICAS no CAED-Jus 2026

A entrevistada da vez é a Márcia Santos Duarte de Oliveira.

Márcia Santos Duarte de Oliveira Professora Doutora da Universidade de São Paulo (USP);

Mestra em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB) e Doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP);

Realizou pós-doutorado na Universidade de Coimbra, Portugal, e no Instituto Politécnico do Libolo (ISPTLO), Angola;

Pesquisadora nas áreas de linguística de contato, morfossintaxe e variedades do português falado na África Atlântica e no Brasil;

Coordenadora do Projeto Internacional “Projeto Libolo”, desenvolvido em parceria com a Universidade de Macau;

Coordenadora do Portal de Variedades de Português (PVP), em parceria com a Universidade de Aarhus, Dinamarca;

Participou dos grupos de trabalho responsáveis pela implementação do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL);

Autora e organizadora de obras sobre português afro-atlântico, línguas crioulas e diversidade linguística;

Editora-Chefe da revista internacional “Global Review of Social Sciences, Education and Humanities”;

Criadora do portal de extensão universitária “África em Ponto”.

Nesse momento, coordenadora do GT 09 – TEORIAS, INTERDISCIPLINARIDADE E PESQUISAS EMPÍRICAS.

Confira a entrevista:

1) Quais foram as principais influências ou experiências que moldaram sua abordagem acadêmica até hoje?

As principais infliências e experiências que moldaram minha abordagem acadêmica podem ser agrupadas nos seguintes vetores que têm influenciado minhas orientações de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado:
a formação em Linguística pela UnB (mestrado) e pela USP (doutorado) especializando-me na Linguística Africanista com enfoque em uma língua falada na Nigéria (onde estive por um ano e meio, ligada à Universidade de Uyo);
Imdediatamente após meu doutoramento na USP (no Departamento de Linguística da FFLCH), ao final de 2004, prestei concurso público na mesma Universidade para o cargo de professora-doutora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas – DLCV) sendo aprovada; é onde estou até hoje. Comecei no DLCV, na área de Língua Portuguesa, a investigar os contextos de língua portuguesa e de contato na África; iniciei estudos e orientação sobre a língua crioula de Cabo Verde (o caboverdiano) e logo em seguida sobre a língua crioula de Guiné Bissau (o guineense).
Através dos estudos sobre novas línguas criadas a partir do tráfico negreiro, como as línguas crioulas, iniciei meus primeiros estudos sobre variedades de português brasileiras que cunhei, junto a orientandos e colaboradores, de “português afro-indígena”.
Meu primeiro pós-doutorado na Universidade de Coimbra em 2008, sob a supervisão de um grande nome da Linguística de Contato, o americano John Holm, abriu minha visão para investigações sobre variedades de português vernaculares resultantes de intenso contato linguístico, como as comunidades quilombolas do norte do Brasil; iniciei pesquisa com a comunidade quilobola de Jurussaca no Pará por volta de 2006.
Em 2010, iniciei a coordenação de um projeto de pesquisa que se estendeu por 10 anos na área histórica angolana conhecida como “Libolo” – hoje divididida em três municípios da Província do Cuanza Sul.
O Projeto Libolo levou-me a uma interação em Angola que me rendeu a orientação de dois doutorados com o tema: o português flaado em Angola (especificamente nas terras do Libolo) e um mestrado, sem contar quatro Iniciações Científicas.
Em 2024 estive em terras do Libolo, no município de Calulo, para um segundo pós-doutoramento, desta feita sob a supervisão do Dr. Manuel Octávio Issac Spínola, Diretor do Instituto Politécnico do Libolo (ISPTLO), especialista em Educação Superior em Angola. Durante nove meses, atuei fortemente na implementação do Centro de Pesquisas do ISPTLO, recebendo e direcionando, no âmbito do Centro, a visita do pesquisador David Paul Gerards da Johannes Gutenberg-Universität Mainz/ Deutschland.

2) Como a sua experiência acadêmica prévia contribui para a sua visão sobre os desafios e oportunidades do seu GT no CAED-Jus?

Recebi com grande alegria o honroso convite para coordenar, em parceria com outras colegas, o GT 09 “Teorias, Interdisciplinaridade e Pesquisas Empíricas” do CAED-Jus 2026, ano em que se comemora uma década deste relevante evento acadêmico. Ao receber o convite, percebi que também completava dez anos de percurso pensando, investigando, orientando e publicando sobre o que, mais tarde, em diálogo com colaboradores, denominei “português afro-indígena”. Esse caminho me levou a mergulhar em outras áreas do conhecimento – História, Geografia, Sociologia, Antropologia e Direitos Humanos – e, nesse movimento, a compreender a linguística como um campo profundamente interligado a outras disciplinas.
Por isso, no GT 09, meu intuito é desafiar os acadêmicos a articular teorias bem fundamentadas com pesquisas empíricas que dialoguem com questões concretas da sociedade contemporânea, no Brasil e em outros contextos. A meu ver, a interdisciplinaridade não pode ser apenas um termo de moda, mas deve ocupar um lugar central na produção de conhecimento, especialmente quando se trata de compreender e transformar realidades marcadas por desigualdade, diversidade e direitos.

3) Como você enxerga o papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais do direito e em outras áreas interdisciplinares?

Dada minha experiência em linguística de contato, em subvariedades de português faladas na África e no Brasil, eu percebo o CAED-Jus como um fórum que abre espaço para disciplinas interfaciadas ao núcleo jurídico – como a linguística, a sociologia, a antropologia e a educação – a fim de que contribuam para a compreensão de questões de justiça, direitos linguísticos e políticas públicas. O CAED-JUS é um Congresso que permite que profissionais, mesmo de áreas não jurídicas, vejam seus saberes relevantes na discussão de temas jurídicos, fortalecendo uma cultura de interdisciplinaridade que o próprio evento procura fomentar e documentar em seus livros e volumes temáticos.

4) A temática do seu GT é fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da sua temática?

A temática do meu GT – “Teorias, Interdisciplinaridade e Pesquisas Empíricas” – é, de fato, fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar, porque permite que o campo jurídico se aproxime de outras áreas do conhecimento em diálogo vivo, e não apenas de forma decorativa. A meu ver, o principal desafio dessa temática está justamente em construir uma interdisciplinaridade que seja rigorosa, consistente e produtiva, e não apenas simbólica.
Trabalhar com interface exige um constante ato de estudar e de aprender com agilidade, muitas vezes em modelos de pensamento e de análise que não são os originais da formação da/o pesquisadora/or, como os de juristas, sociólogos, cientistas políticos, educadores ou antropólogos. Esse é um dos grandes desafios: conseguir sair com segurança da própria zona disciplinar, compreender logicamente os pressupostos de outras áreas, articular metodologias heterogêneas e ainda assim manter coerência teórica e rigor na pesquisa empírica.
Além disso, há o desafio de não diluir a especificidade do direito, nem das outras áreas, quando se busca esse diálogo. De novo, o que busco no GT 09 do CAED-Jus é incentivar pesquisas que efectivamente transitem entre o jurídico e o não-jurídico, mostrando que a interdisciplinaridade só faz sentido quando se aprende de verdade com outras disciplinas, e não apenas as cita de passagem.

5) De que maneira você acha que sua área de pesquisa pode impactar a transformação ou inovação no campo jurídico, especialmente em termos interdisciplinares?

A linguística de contato, especialmente em contextos de minorias como os territórios afro-indígenas no Brasil, pode impactar a transformação e a inovação no campo jurídico ao tornar visível a dimensão linguística da desigualdade, da exclusão e dos direitos humanos, algo que muitas vezes permanece escondido na formulação e aplicação das normas. Estudar territórios de fala de português afro-indígena no Brasil ou territórios de falas de português faladas em África, por exemplo, mostra que processos de colonização, migração e reconfiguração social deixam marcas profundas na forma como comunidades se expressam e se reconhecem como sujeitos de direitos. Isso permite ao campo jurídico reavaliar, por exemplo, a linguagem dos documentos, dos atos processuais e dos direitos linguísticos, compreendendo que a negação ou o desprezo por certas variedades linguísticas é, em si, uma forma de violência e de exclusão.
Penso que a linguística de contato e seus estudos propiciam ferramentas para pensar um direito mais inclusivo e intercultural, pois revela que normas, contratos, decisões judiciais e políticas públicas são sempre produzidas em contextos linguísticos específicos, onde o poder se materializa também na escolha de uma língua “oficial” sobre outras.
Em suma, a linguística de contato e seus estudos sobre falares em áreas minoritárias, por exemplo, ajuda a inovar o campo jurídico ao transformar a língua(gem) em objeto de direitos.

6) Quais recursos ou estratégias você utilizou para manter-se atualizado(a) e relevante dentro da sua área de pesquisa?

Para manter-me atualizada e relevante em minha área de pesquisa, tenho investido em uma atualização constante que vai além da leitura específica de linguística. Ao longo dos anos, fui conduzida pelos próprios objetos de estudo (como o português afro-indígena e as variedades de português em contextos africanos e brasileiros) a buscar, de forma sistemática, temas e debates em áreas como a História, sobretudo em torno da formação de territórios específicos, trajetos de resistência, diásporas e processos coloniais e decoloniais. Esses estudos históricos são fundamentais para que a análise linguística não se limite à descrição e análise linguística, mas se conecte a contextos de poder, deslocamento e reconfiguração de identidades. Ao mesmo tempo, tenho recorrido intensamente à Geografia, especialmente aos conceitos de territorialidade, multiterritorialidade e fronteiras simbólicas, para compreender como falantes e comunidades marcam, atravessam e recriam seus espaços linguísticos.
Estudos em sociologia e antropologia têm me permitido pensar que a linguística de contato deve ser uma ferramenta para pensar justiça, direitos linguísticos e desigualdade. As perpsectivas de outras áreas além da Linguística têm me ajudado a ver o contato linguístico não como um fenômeno abstrato, mas como um processo enraizado em circulações concretas de pessoas, mercadorias, ideias e instituições.
Nos últimos três anos, eu pude ampliar significativamente minha rede de contatos interdisciplinares ao me envolver com a “rede dadivosa de Felipe Asensi”, em especial com o ‘Academus’. Por meio de Felipe e sua rede eu me integrei ao ‘novo mundo da Inteligência Artificial sem medo e priorizando a ética acadêmica. Ser parte do CAED-Jus é consequência de ser parte do Academus, e é, realmente, um presente poder ser parte desse movimento.

7) Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, qual habilidade você acredita ser essencial para o sucesso nesse tipo de iniciativa?

Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, acredito que a habilidade mais essencial seja a capacidade de escuta ativa e de aprendizado contínuo. Entrar em diálogo com outras áreas significa frequentar territórios conceituais, metodológicos e até linguísticos que não são os ‘seus’; é preciso, portanto, saber reconhecer que não se sabe tudo, ter humildade científica e disposição para aprender rapidamente com colegas de outras formações.
A escuta ativa precisa vir acompanhada de uma forte habilidade de articular e traduzir: traduzir os próprios conceitos para linguagens compreensíveis por outros campos, e também traduzir ideias alheias para o próprio universo disciplinar, sem perder as especificidades de cada área. Projetos interdisciplinares só têm sucesso quando se constrói uma linguagem comum, mas sem anular o que cada área tem de original e rigoroso.
Para quem está começando, também recomendaria muito que buscasse se inserir em redes generosas de colaboração generosa. Sim, elas existem e eu aponto as que vêm sendo construídas por Felipe Asensi, por exemplo, nos diversos espaços que ele coordena e articula. Fazer parte de uma dessas redes é uma oportunidade excelente para aprender a trabalhar em equipe interdisciplinar, conhecer pessoas com trajetórias diferentes e, sobretudo, participar de um ambiente de troca em que a ‘dádiva’ de conhecimento é o princípio central. A minha experiência com essas redes mostrou que, mais do que produtividade, o que se constrói é senso de comunidade, responsabilidade mútua e possibilidade de inovar a partir de diálogos reais.

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A propósito, você já submeteu seu trabalho ao próximo evento do CAED-Jus? Você pode acessar o site do CAED-Jus em www.eventoscaedjus.com/caedjus-site e se inscrever no próximo evento programado com um artigo de sua autoria. Aproveite esta oportunidade!

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