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Entrevista com Flavio Albuquerque Neto – GT 05 – CRIMES E SEGURANÇA PÚBLICA no CAED-Jus 2026

O entrevistado da vez é o Flavio Albuquerque Neto.

Flavio Albuquerque Neto Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE);

Professor e pesquisador do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE);

Pesquisador nas áreas de História das Prisões, educação prisional, sistema penitenciário e Direitos Humanos;

Diretor de Pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do Instituto Federal de Pernambuco (IFPE);

Atuou como pesquisador no Diagnóstico de Segurança Pública da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (SENASP/MJ);

Participou do Censo de Leitura nos Sistemas Prisional e Socioeducativo do Conselho Nacional de Justiça (CNJ);

Organizador da coletânea “História das Prisões no Brasil”, publicada pelas editoras Rocco e Anfiteatro.

Nesse momento, coordenadora do GT 05 – CRIMES E SEGURANÇA PÚBLICA.

Confira a entrevista:

1) Quais foram as principais influências ou experiências que moldaram sua abordagem acadêmica até hoje?

Posso assegurar que tenho duas grandes influências: uma teórica e outra prática. A primeira refere-se aos estudos de Erwing Goffman, que impactou o estudo das prisões ao conceituá-las como “instituições totais”, revelando como essas estruturas moldam a identidade dos indivíduos e impõem processos de “mortificação do eu”. A segunda refere-se ao meu convívio com os diversos sujeitos do cotidiano das prisões, nas ocasiões diversas em que, no desenvolvimento de projetos de pesquisa ou extensão, tive contato direto e imersão em várias unidades prisionais do estado de Pernambuco. Além da minha longa trajetória como historiador, que me permite uma visão diferenciada em relação ao funcionamento do sistema e às lógicas do poder punitivo.

2) Como a sua experiência acadêmica prévia contribui para a sua visão sobre os desafios e oportunidades do seu GT no CAED-Jus?

  O grande desafio do GT é, sem dúvida, promover um debate inter, trans e multidisciplinar, para que consigamos fomentar discussões atualizadas, dialogando com o que há de mais recente na produção acadêmica sobre crimes e segurança pública. Assim, considero que minha experiência, ao estudar as prisões brasileiras em uma perspectiva multidisciplinar numa abordagem histórica, contribuirá para que o GT funcione da maneira que esperamos: plural!. 

3) Como você enxerga o papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais do direito e em outras áreas interdisciplinares? 

Eu destaco duas dimensões: 1. integração com outras áreas, a partir do momento quem que o CAED-Jus estimula a interdisciplinaridade ao promover eventos, debates e publicações que conectam o Direito a outras áreas, como Sociologia, Economia, Psicologia, Tecnologia, Educação, História, entre outras, ampliando a visão dos profissionais, preparando-os para lidar com questões complexas e multifacetadas; 2. abordagem de temas contemporâneos, ao tratar de temas como inteligência artificial, inovação tecnológica, sustentabilidade, justiça social, entre outros, o CAED-Jus ajuda os profissionais a entenderem como o Direito se relaciona com outras disciplinas e, principalmente, com os desafios impostos pelo mundo atual.

4) A temática do seu GT é fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da sua temática?

Pode não parecer aos olhares desatentos, mas o fenômeno do crime é bastante complexo, não podendo ser entendido apenas em seu aspecto jurídico ou pensado apenas a partir em questões sociológicas. Da mesma forma, falar em segurança pública não consiste somente em dispor de mais efetivo policial nas ruas ou aumentar o número de vagas no sistema prisional. Esses são assuntos que requerem amplas e longas reflexões, que devem, obrigatoriamente, perpassar por diversos saberes e setores da sociedade: gestão pública, educação, saúde, lazer, sociologia, criminologia, trabalho e empregabilidade, psicologia, etc. Portanto, o grande desafio em discutir segurança pública e crimes – ou criminalidade – reside em promover um debate inter, multi e transdisciplinar, fazendo com que tenhamos a real dimensão da complexidade desses fenômenos, para que não caiamos nos mesmos erros e simplificações tão comuns no cotidiano brasileiro, a exemplo da dispendiosa guerra às drogas ou o encarceramento massivo.

5) De que maneira você acha que sua área de pesquisa pode impactar a transformação ou inovação no campo jurídico, especialmente em termos interdisciplinares?

A História desempenha um papel crucial na atualização dos saberes jurídicos ao fornecer uma base contextual e crítica para a transformação das leis, das práticas e das instituições. O estudo histórico permite uma análise acurada sobre como interpretações e aplicações do Direito se apreentaram e mudaram ao longo do tempo. Isso pode inspirar novas abordagens ou questionar práticas enraizadas que não mais refletem os valores contemporâneos. Além disso, ao propor diálogo com outras disciplinas, como a Sociologia, a Antropologia e a Ciência Política, enriquece a compreensão do Direito como um fenômeno social dinâmico. Essa interação pode levar a inovações na forma como o direito aborda questões como direitos humanos, igualdade e justiça social.

6) Quais recursos ou estratégias você utilizou para manter-se atualizado(a) e relevante dentro da sua área de pesquisa?

Na minha área é importantíssimo,manter as leituras atualizadas. Para isso, além de frequentar livrarias e bibliotecas, utilizo com frequência ferramentas como portais de periódicos, para consultar artigos em veículos relevantes, bem como repositórios institucionais de universidades, buscando as produções mais recentes principalmente no âmbito dos programas de pós-graduação stricto sensu (mestrados e doutorados). Em segundo lugar, frequentar eventos acadêmicos também é importante para conhecermos as pesquisas recentes e os jovens pesquisadores. Tenho participado, também, de bancas de TCC, teses ou dissertações que têm me possibilitado um contato efetivo com novas produções e abordagens. 

7) Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, qual habilidade você acredita ser essencial para o sucesso nesse tipo de iniciativa?

Primeiramente, considero que uma habilidade essencial para o sucesso nesse tipo de projeto é a capacidade de comunicação eficaz. Essa habilidade vai além de simplesmente saber falar ou escrever bem; envolve a capacidade de articular ideias de forma clara e adaptar a linguagem para diferentes públicos e áreas de conhecimento. Outras habilidades fundamentais são o pensamento crítico e a curiosidade intelectual, sem imposição de barreiras epistemológicas entre as diversas áreas do conhecimento. E leitura! Muita leitura.

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