O entrevistado da vez é o Fernando Bertoncello.

Fernando Bertoncello Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie;
Mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie;
Mestre, em regime de dupla titulação, em Direito Internacional e Comparado e em Direito Americano pela University of Miami School of Law, Estados Unidos;
Doutor em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com período de doutorado-sanduíche na University of Miami;
Professor efetivo da Westcliff University, na Califórnia, atuando em cursos de graduação, MBA e doutorado, nos campi da Califórnia e da Flórida, além da modalidade remota;
Foi professor convidado da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Escola Paulista de Direito;
Advogado licenciado pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional São Paulo (OAB/SP), pelo Florida Bar e pelo New York Bar;
Fundador do escritório Bertoncello Law P.A., sediado em Miami, com atuação voltada ao Direito Internacional, internacionalização de empresas e negócios transnacionais.
Nesse momento, coordenador do GT 7 – DIREITO, GLOBALIZAÇÃO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Confira a entrevista:
1) Quais foram as principais influências ou experiências que moldaram sua abordagem acadêmica até hoje?
Minha trajetória acadêmica foi moldada por uma vocação profundamente interdisciplinar. Antes mesmo do Direito, cursei Letras — uma paixão por línguas que me levou ao estudo de cinco idiomas (português, inglês, espanhol, italiano e francês), cada um trazendo consigo uma lógica jurídica e cultural própria. Para além das línguas, sempre fui movido pelas humanidades em sentido amplo: filosofia, antropologia, estudos de gênero e diferentes abordagens da psicologia — psicanálise, behaviorismo, terapia cognitivo-comportamental, terapia de grupo — compõem o repertório que carrego para a sala de aula e para a prática profissional. A vivência como advogado corporativo no Brasil e, posteriormente, como advogado internacional licenciado em três jurisdições, consolidou em mim a convicção de que o Direito não se basta em si mesmo: ele é necessariamente atravessado por outras formas de saber, e o jurista que ignora isso perde capacidade de leitura do mundo em que atua.
2) Como a sua experiência acadêmica prévia contribui para a sua visão sobre os desafios e oportunidades do seu GT no CAED-Jus?
Hoje sou professor efetivo da Westcliff University, na Califórnia, atuando em graduação, MBA e no programa de doutorado, com aulas presenciais nos campi da Califórnia e da Flórida, além da modalidade remota. Antes disso, ocupei posições docentes na Universidade Presbiteriana Mackenzie e na Escola Paulista de Direito. Essa transição entre a academia brasileira e a norte-americana me deu uma percepção bastante concreta dos gargalos de internacionalização da produção jurídica nacional — e, ao mesmo tempo, das oportunidades que se abrem quando juristas brasileiros começam a dialogar em pé de igualdade com seus pares no exterior. O GT de Direito Internacional no CAED-Jus me parece exatamente esse espaço de convergência: um ambiente em que essa internacionalização se torna não apenas possível, mas necessária.
3) Como você enxerga o papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais do direito e em outras áreas interdisciplinares?
O CAED-Jus cumpre uma função que considero estratégica: democratizar o acesso ao debate jurídico de alto nível, conectando pesquisadores, docentes e profissionais de diferentes regiões e instituições em um mesmo espaço. Para quem está começando, é uma vitrine rara — e talvez uma das poucas no Brasil que combina rigor acadêmico, alcance nacional e abertura efetiva à interdisciplinaridade. Vejo o evento como um catalisador: ele não apenas forma, mas conecta. E, em um campo como o Direito, em que a circulação de ideias entre escolas e jurisdições é frequentemente travada por barreiras institucionais, criar essas pontes é tão importante quanto produzir conhecimento novo.
4) A temática do seu GT é fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da sua temática?
O Direito Internacional vive um dos momentos mais tensionados das últimas décadas. A imposição unilateral de tarifas, o desinvestimento sistemático em organizações internacionais, o avanço da multipolaridade e o enfraquecimento de fóruns multilaterais colocam em xeque pressupostos que a disciplina vinha construindo desde o pós-Segunda Guerra. O desafio central, a meu ver, é duplo: de um lado, repensar instrumentos e instituições que claramente não estão respondendo à nova configuração geopolítica; de outro, preservar o núcleo civilizatório do Direito Internacional — sobretudo a tutela dos direitos humanos — em um cenário em que parte significativa dos atores globais passa a tratá-lo como obstáculo, e não como conquista. Reunir profissionais qualificados para discutir isso, com seriedade e profundidade, é parte indispensável da resposta.
5) De que maneira você acha que sua área de pesquisa pode impactar a transformação ou inovação no campo jurídico, especialmente em termos interdisciplinares?
O Direito Internacional, por sua própria natureza, é um campo de fronteira — fronteira entre jurisdições, entre culturas jurídicas e entre disciplinas. Na minha prática cotidiana, isso se traduz em projetos de internacionalização de empresas, estruturação de operações transnacionais, planejamento patrimonial e sucessório transfronteiriço e imigração baseada em investimento — todos eles inviáveis sem diálogo com economia, ciência política, relações internacionais e até teoria organizacional. A inovação jurídica, hoje, raramente nasce dentro de uma única dogmática: ela emerge da capacidade de articular linguagens diferentes. Meu objetivo, como pesquisador e professor, é demonstrar que essa articulação não é um luxo intelectual, mas uma condição prática para que o Direito sirva, de fato, a quem opera em mais de um sistema.
6) Quais recursos ou estratégias você utilizou para manter-se atualizado(a) e relevante dentro da sua área de pesquisa?
A primeira estratégia é estrutural: viver e trabalhar simultaneamente em mais de uma jurisdição. Atuo cotidianamente em Miami, mas mantenho vínculo ativo com a comunidade jurídica brasileira e leciono para alunos de diferentes nacionalidades. A segunda é o investimento contínuo nos idiomas — ler doutrina, jurisprudência e decisões administrativas nas línguas originais altera substancialmente a compreensão de cada sistema. A terceira é a própria docência: orientar trabalhos de mestrado e doutorado me obriga a estar permanentemente exposto a temas novos e a metodologias que eu não escolheria sozinho. Por fim, acompanho de perto think tanks, organismos internacionais, publicações especializadas em comércio internacional e em imigração, e a produção acadêmica da Westcliff University e da University of Miami School of Law, instituições que integram a minha trajetória.
7) Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, qual habilidade você acredita ser essencial para o sucesso nesse tipo de iniciativa?
Humildade intelectual. Um projeto interdisciplinar verdadeiro exige reconhecer, desde o início, que o vocabulário e os métodos de outra área não são “menos rigorosos” — são apenas diferentes. Quem entra em uma colaboração interdisciplinar querendo traduzir tudo para a linguagem do Direito, ou exigindo que os demais o façam, costuma fracassar. A habilidade essencial é saber ouvir com atenção genuína, suspender categorias automáticas e aceitar que o problema, muitas vezes, é melhor formulado por quem vem de fora. A isso eu acrescentaria a capacidade de operar em mais de uma língua: ela não é apenas instrumental — ela treina a mente a habitar mais de um sistema simbólico ao mesmo tempo, que é, no fim, exatamente o que a interdisciplinaridade exige.
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