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Entrevista com Vicente Henrique de Oliveira Filho–coordenador – GT 8 – TECNOLOGIA E SOCIEDADE no CAED-Jus 2026

O entrevistado da vez é o Vicente Henrique de Oliveira Filho.

Vicente Henrique de Oliveira Filho. Doutor em Educação Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP);

Mestre em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS);

Licenciado em Ciências com habilitação em Matemática e em Pedagogia pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA);

Especialista em Matemática, Educação a Distância e Tecnologia em Educação;

Realizou estágio pós-doutoral na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA);

Membro da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM);

Criador do conceito TPACKI – Conhecimento Imaginário Criativo Tecnológico e Pedagógico do Conteúdo;

Autor do livro “O Som e a Sílaba”, obra voltada à alfabetização, linguagem e expressão criativa;

Autor do livro “O Mundo Fala por Meio dos Símbolos”, publicado pela Editora Minimalismos;

Pesquisador nas áreas de Educação Matemática, tecnologias educacionais, linguagem, imaginação e criatividade..

Nesse momento, coordenador do GT 8 – TECNOLOGIA E SOCIEDADE.

Confira a entrevista:

1) Quais foram as principais influências ou experiências que moldaram sua abordagem acadêmica até hoje?

A trajetória acadêmica foi profundamente marcada por contrastes e encontros. Oriundo da Licenciatura em Ciências com habilitação em Matemática e Pedagogia pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), o percurso formativo atravessou geografias e paradigmas distintos do pensamento educacional brasileiro.
A passagem pelo Mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela PUCRS representou o primeiro grande encontro com pesquisas rigorosas sobre ensino e aprendizagem mediados por tecnologia. Foi nesse ambiente que emergiram questões fundamentais sobre como as ferramentas digitais não apenas instrumentalizam, mas ressignificam a relação do estudante com o saber matemático.
O Doutorado em Educação Matemática pela PUC-SP, com concentração em Tecnologias e Meios de Expressão em Matemática, aprofundou essa perspectiva. Ali, o contato com diferentes abordagens teóricas – da semiótica peirceana às teorias construtivistas – formou um repertório capaz de articular dimensões cognitivas, culturais e tecnológicas do ensino. A publicação de oito livros ao longo dessa trajetória consolidou um compromisso permanente com a produção e a divulgação do conhecimento pedagógico.
O Pós-Doutorado na UNIFESSPA (2023-2025) representa o capítulo mais recente: um retorno às realidades amazônicas que recoloca o pesquisador diante de contextos onde tecnologia e formação docente assumem urgência renovada. Essas experiências acumuladas formam não apenas um currículo, mas uma visão de mundo sobre o papel transformador da educação matemática.

2) Como a sua experiência acadêmica prévia contribui para a sua visão sobre os desafios e oportunidades do seu GT no CAED-Jus?

A experiência acumulada em Educação Matemática, especialmente nas interfaces com tecnologias de informação e comunicação, oferece uma lente particularmente fértil para pensar os desafios do GT 8 no CAED-Jus. A relação entre tecnologia e sociedade não é nova para quem pesquisa há décadas como as ferramentas digitais reconfiguram práticas pedagógicas – e o mesmo movimento ocorre no campo jurídico.
O modelo TPACK – Conhecimento Tecnológico Pedagógico do Conteúdo – desenvolvido na trajetória de pesquisa oferece um framework analítico aplicável a qualquer área que precise repensar como o conhecimento disciplinar se transforma quando mediado por tecnologia, incluindo o Direito.
Os estudos sobre formação inicial e continuada de professores que ensinam matemática iluminam dinâmicas semelhantes às enfrentadas na formação jurídica contemporânea: como preparar profissionais capazes de operar em ambientes tecnológicos complexos sem perder a dimensão ética e humanista da profissão?
Pesquisas sobre identidade profissional docente revelam tensões análogas às vividas por operadores do Direito: a necessidade de reconfigurar saberes tradicionais diante de ferramentas que alteram não apenas os meios, mas os fins da prática profissional.

3) Como você enxerga o papel do CAED-Jus na formação de novos profissionais do direito e em outras áreas interdisciplinares??

O CAED-Jus ocupa um lugar singular no cenário acadêmico brasileiro: um espaço onde o rigor jurídico se abre para o diálogo com outras disciplinas, reconhecendo que os problemas contemporâneos não cabem nos limites de uma única área do conhecimento. Do ponto de vista de quem pesquisa educação e tecnologia, esse é precisamente o movimento epistemológico mais necessário e mais difícil de consolidar.
O CAED-Jus contribui para formar profissionais capazes de transitar entre saberes, essencial para enfrentar desafios jurídicos de natureza tecnológica, ambiental e social que demandam múltiplas perspectivas.
Ao reunir pesquisadores de diferentes áreas, o CAED-Jus favorece uma produção acadêmica que responde às especificidades do contexto brasileiro, articulando teoria e prática de maneira contextualizada e crítica.
O ambiente colaborativo do CAED-Jus cria condições para que pesquisadores experientes orientem novos talentos, fortalecendo redes de pesquisa interdisciplinares com impacto duradouro na cultura acadêmica.
A interdisciplinaridade não é apenas uma escolha metodológica: é uma resposta ética às demandas de uma sociedade que exige profissionais capazes de compreender as dimensões sociais, tecnológicas e jurídicas dos fenômenos de forma integrada. O CAED-Jus, ao estruturar grupos de trabalho temáticos, operacionaliza essa visão de forma concreta e estratégica.

4) A temática do seu GT é fundamental para pensar o direito de maneira interdisciplinar. O que você concebe como principal desafio da sua temática?

A temática Tecnologia e Sociedade carrega em si uma tensão constitutiva: a tecnologia avança em ritmo exponencial, enquanto as estruturas jurídicas, sociais e educacionais tendem a responder de forma linear e gradual. Esse descompasso temporal é, talvez, o principal desafio a ser enfrentado pelo GT 8.
Do ponto de vista da Educação Matemática, essa assimetria é bem conhecida. O conceito de TPACKI – Conhecimento Imaginário Criativo Tecnológico e Pedagógico do Conteúdo – surge precisamente para responder a um problema semelhante: como mobilizar não apenas competências técnicas e pedagógicas, mas também a imaginação criativa necessária para operar em contextos de incerteza e transformação acelerada? No campo jurídico, a pergunta se traduz em: como regular, julgar e legislar sobre tecnologias cujos efeitos sociais ainda estão sendo compreendidos?
Velocidade vs. Regulação: A inovação tecnológica supera a capacidade normativa dos sistemas jurídicos, criando lacunas regulatórias com consequências sociais profundas.
Letramento Digital Crítico: Tanto juristas quanto educadores precisam desenvolver competências críticas para distinguir entre tecnologias que emancipam e aquelas que aprofundam desigualdades.
Ética e Inteligência Artificial: O avanço da IA nos sistemas jurídicos e educacionais levanta questões sobre responsabilidade, viés algorítmico e a preservação da dignidade humana nas decisões automatizadas.
Desigualdade de Acesso: No contexto brasileiro, a exclusão digital permanece um obstáculo estrutural que compromete tanto a justiça no acesso ao Direito quanto a equidade na educação mediada por tecnologia.

5) De que maneira você acha que sua área de pesquisa pode impactar a transformação ou inovação no campo jurídico, especialmente em termos interdisciplinares?

À primeira vista, a Educação Matemática e o Direito podem parecer campos distantes. No entanto, ambos compartilham um desafio central na contemporaneidade: como incorporar tecnologia de forma crítica, ética e pedagogicamente orientada às suas práticas?
As pesquisas sobre TPACK e TPACKI oferecem ao campo jurídico uma contribuição valiosa: um modelo estruturado para pensar a relação entre conhecimento disciplinar (o Direito), conhecimento pedagógico (como ensinar e transmitir o saber jurídico) e conhecimento tecnológico (como as ferramentas digitais transformam ambos).
A pesquisa em formação de professores que ensinam matemática revela que a incorporação acrítica da tecnologia pode reproduzir práticas tradicionais em formatos digitais sem transformá-las efetivamente. O mesmo risco existe no Direito: digitalizar processos sem repensar fundamentos epistemológicos não constitui inovação.
O conceito de Imaginário Criativo, central no TPACKI, aponta para a necessidade de cultivar a capacidade imaginativa como competência profissional – algo igualmente relevante para juristas que precisam antecipar cenários normativos inéditos criados por novas tecnologias.
Além disso, pesquisas sobre Educação a Distância e TICs desenvolvidas ao longo da trajetória acadêmica oferecem subsídios concretos para pensar o acesso democrático à educação jurídica e ao sistema de justiça em um país de dimensões continentais como o Brasil, onde a desigualdade regional ainda é fator determinante nas trajetórias profissionais.
Modelo TPACK e TPACKI

Fonte: o autor

Compreender os modelos desenvolvidos ao longo da trajetória de pesquisa é fundamental para entender como tecnologia, pedagogia e conteúdo se articulam na formação profissional.
O modelo TPACKI representa uma expansão original do framework TPACK, incorporando a dimensão do Imaginário Criativo como elemento estruturante do conhecimento docente. Essa inovação teórica reconhece que a integração efetiva de tecnologias na educação exige não apenas competências técnicas e pedagógicas, mas também a capacidade de imaginar novas possibilidades de ensino e aprendizagem que transcendem os modelos existentes. No contexto do GT 8, esse modelo oferece uma linguagem conceitual para pensar como profissionais do Direito podem desenvolver competências tecnológicas que vão além do uso instrumental de ferramentas digitais.

6) Quais recursos ou estratégias você utilizou para manter-se atualizado(a) e relevante dentro da sua área de pesquisa?

Manter-se atualizado em uma área marcada pela velocidade das transformações tecnológicas exige uma combinação de estratégias sistemáticas e abertura intelectual permanente. Ao longo de uma trajetória que atravessa especializações em Matemática, Educação a Distância e Tecnologia em Educação, algumas práticas se mostraram especialmente eficazes.
A leitura regular de periódicos nacionais e internacionais de Educação Matemática, Tecnologia Educacional e Direito Digital permite identificar tendências emergentes antes que se tornem senso comum. Bases como CAPES, Scopus e Google Acadêmico são consultadas regularmente, com atenção especial a preprints que antecipam debates ainda em formação.
Congressos, simpósios e grupos de trabalho como o CAED-Jus são espaços privilegiados para o confronto de ideias e a identificação de lacunas de pesquisa. A apresentação de trabalhos – e não apenas a assistência – mantém o pesquisador em posição ativa no campo, sujeito ao escrutínio construtivo dos pares.
A produção de oito livros ao longo da carreira reflete uma disciplina intelectual que obriga à síntese e à atualização permanente. Escrever para publicar força o pesquisador a confrontar o estado da arte, identificar as contribuições originais de sua pesquisa e comunicar resultados de forma rigorosa e acessível.
A participação em grupos de pesquisa interdisciplinares – que reúnem educadores, matemáticos, tecnólogos e, agora, juristas – cria uma ecologia intelectual que amplia horizontes e desafia especialismos fechados. O Pós-Doutorado na UNIFESSPA foi, também, uma estratégia deliberada de imersão em novos contextos que revitalizam perspectivas de pesquisa.

7) Para quem está começando a se envolver com projetos interdisciplinares, qual habilidade você acredita ser essencial para o sucesso nesse tipo de iniciativa?

Para quem está dando os primeiros passos em projetos interdisciplinares, a tentação mais comum é a de dominar todos os campos envolvidos antes de agir. É uma armadilha. A interdisciplinaridade não exige enciclopedismo: exige a habilidade de dialogar com rigor além das fronteiras do próprio domínio de especialidade. Essa competência, aparentemente simples, é profundamente exigente.
A interdisciplinaridade começa pelo aprofundamento, não pela superficialidade. Sem um domínio robusto da própria disciplina, o pesquisador não tem o que oferecer ao diálogo interáreas.
A capacidade de ouvir sem hierarquizar saberes é fundamental. Cada disciplina possui modos próprios de produzir conhecimento – reconhecer isso sem submissão nem arrogância é a base do trabalho interdisciplinar genuíno.
O TPACKI ensina que a imaginação criativa não é ornamento: é estrutura. Para projetos interdisciplinares, a capacidade de imaginar conexões inéditas entre campos distintos é tão importante quanto o rigor metodológico. É ela que transforma justaposição disciplinar em síntese criativa.
No contexto do GT 8, a competência tecnológica é inescapável. Não se trata de dominar todas as ferramentas, mas de compreender como as tecnologias reconfiguram saberes, práticas e relações de poder – e como isso é relevante tanto para a Educação quanto para o Direito.
A aproximação entre Educação Matemática e o campo jurídico pode parecer improvável à primeira vista, mas revela-se cada vez mais necessária à medida que os sistemas jurídicos incorporam ferramentas de análise quantitativa, algoritmos de decisão e plataformas digitais de acesso à justiça. Compreender como o conhecimento matemático é ensinado, aprendido e comunicado oferece ao Direito perspectivas valiosas sobre como estruturar raciocínios formais em contextos de complexidade crescente.
Convergências Epistemológicas: i) Ambos os campos operam com sistemas formais que exigem precisão conceitual e rigor argumentativo; ii) Tanto a Matemática quanto o Direito enfrentam o desafio de comunicar conhecimento especializado a públicos não especialistas; iii) A questão da prova – matemática ou jurídica – compartilha fundamentos lógicos que a pesquisa interdisciplinar pode explorar; iv) A incorporação de tecnologia em ambos os campos levanta questões epistemológicas similares sobre confiança, validade e legitimidade
Desafios Compartilhados: i) Como formar profissionais capazes de usar tecnologia sem perder a capacidade de pensamento crítico independente? ii) Como garantir que algoritmos e sistemas automatizados não reproduzam vieses estruturais? iii) Como manter a dimensão humana e ética nas práticas profissionais cada vez mais mediadas por tecnologia? iv) Como promover acesso equitativo a saberes e serviços em um país marcado por profundas desigualdades regionais?
A interdisciplinaridade entre Educação Matemática e Direito não é uma curiosidade acadêmica: é uma resposta necessária a um mundo em que algoritmos decidem créditos, sentenças são apoiadas por sistemas de predição e o acesso à justiça depende cada vez mais de infraestrutura digital.
Pesquisa, Formação e Identidade Profissional um dos eixos mais consistentes da produção acadêmica desenvolvida ao longo desta trajetória é a articulação entre formação profissional, identidade docente e experiências pessoais. Essa perspectiva oferece ao GT 8 um recurso teórico-metodológico valioso: a compreensão de que profissionais – sejam professores de Matemática ou operadores do Direito – não são apenas portadores de competências técnicas, mas sujeitos cujas práticas são moldadas por histórias de vida, valores e imaginários profissionais.
Formação Inicial o momento de entrada na profissão é determinante para a construção de identidades profissionais resilientes. Pesquisas indicam que currículos que integram tecnologia de forma reflexiva – e não apenas instrumental – produzem profissionais mais preparados para contextos de mudança acelerada.
Formação Continuada a atualização profissional não pode ser reduzida à aquisição de novas ferramentas técnicas. Ela exige espaços de reflexão sobre a própria prática, diálogo entre pares e reconhecimento das dimensões afetivas e identitárias do desenvolvimento profissional.
Experiências Pessoais como Recurso a pesquisa sobre “experiências pessoais e formação” reconhece que as histórias de vida dos profissionais são fontes legítimas de conhecimento. No contexto jurídico, isso aponta para a importância de metodologias narrativas e biográficas na formação de juristas.
Identidade em Transformação a identidade profissional não é um dado estático, mas um processo contínuo de negociação entre saberes herdados, demandas contemporâneas e projetos futuros. Compreender essa dinâmica é essencial para qualquer programa de formação que pretenda ser relevante no século XXI.
Ao longo desta entrevista, percorre-se uma trajetória que vai das salas de aula do Maranhão aos laboratórios de pesquisa da Amazônia, passando pelos grandes centros de produção acadêmica de São Paulo e Porto Alegre. O que emerge dessas experiências é uma convicção profunda: a transformação tecnológica da sociedade não pode ser compreendida nem respondida por uma única disciplina.
O GT 8 – Tecnologia e Sociedade – no CAED-Jus representa, nesse sentido, muito mais do que um grupo de trabalho acadêmico. É um laboratório vivo de interdisciplinaridade, onde juristas, educadores, cientistas sociais e pesquisadores de tecnologia são convidados a produzir juntos conhecimento que nenhum deles poderia produzir sozinho. A Educação Matemática, com seus modelos sobre formação docente, identidade profissional e integração tecnológica criativa, tem muito a oferecer a esse diálogo.
Pontes Interdisciplinares: O futuro do Direito exige profissionais capazes de construir pontes entre saberes, não apenas dominar um único campo. Imaginário Criativo: A dimensão criativa e imaginativa – central no TPACKI – é também essencial para juristas que precisam antecipar futuros normativos ainda sem forma definida. Equidade como Horizonte: A tecnologia só é transformadora quando acompanhada de compromisso com a redução de desigualdades – de acesso à educação, à justiça e ao conhecimento. Esta entrevista integra a série de diálogos promovidos pelo CAED-Jus com pesquisadores do GT 8 – Tecnologia e Sociedade, como parte do esforço institucional de construir pontes entre o Direito e outras áreas do conhecimento na era digital.

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